Disparos terminam em morte após picada de cobra a jovem em meio à repressão de garimpeiros
O município de Luremo, na província da Lunda-Norte, vive dias de sobressalto e revolta. O que deveria ser a garantia da ordem pública transformou-se em um cenário de terror, culminando na morte trágica de António Wazanga Catita Caquesse, um jovem de apenas vinte cinco anos de idade (nascido a 15 de abril de 2019), natural de Saurimo, filho de Afonso Caquesse e Alice Mussulo Catita.
Jordan Muacabinza|Cafunfo
Tudo aconteceu por volta das 17h00 do dia 29 de Outubro de 2026 no bairro Muanaquesse, município de Luremo, quando uma operação conjunta da Polícia Nacional e das Forças Armadas Angolanas (FAA), sob o comando local, irrompeu na zona com disparos de armas de fogo.
A acção, descrita por populares como arbitrária e violenta, gerou pânico imediato, num movimento de desespero para escapar da linha de fogo, a população dispersou-se em direção às matas densas que circundam a área.
Foi neste momento de caos que António Wazanga, na tentativa de se salvar dos disparos, foi picado por uma cobra. Socorrido e levado às pressas para o Hospital de Luremo, o jovem não resistiu à gravidade do veneno e acabou por perder a vida horas depois, deixando um rastro de dor e indignação na comunidade.
Testemunhas revoltadas
Dani, uma testemunha ocular que presenciou o momento da incursão, descreveu o pavor vivido: “fomos surpreendidos por vários disparos produzidos pelos agentes da Polícia Nacional e das Forças Armadas Angolanas, que estão concentrados na zona de Bula, onde a população pratica o garimpo artesanal. Fomos obrigados a fugir; um amigo meu, ao tentar esconder-se no matagal, foi picado pela cobra. Horas depois, ele sucumbiu”, contou.
Para Domingos Sarita, a responsabilidade é direta e inquestionável: “Se a polícia não tivesse disparado ao ponto de obrigar a população a refugiar-se nas matas , não teríamos o registo desta morte. A culpa é inteiramente dos agentes que optaram pela força bruta contra cidadãos indefesos”.
A denúncia: o negócio do garimpo
A indignação popular não se limita apenas à truculência, mas estende-se a uma grave denúncia de corrupção e abuso de poder. Garimpeiros e moradores questionam a moralidade da atuação do Comando Municipal da Polícia em Luremo. Segundo relatos, enquanto a atividade é reprimida com disparos, existe um esquema de cobranças ilícitas.
“Se o garimpo de ouro é crime, por que o comandante da Polícia Nacional e as FAA de Luremo autorizam a exploração em alta escala na calada da noite, cobrando valores avultados de cem mil kwanzas (100.000 kwanzas) por cada grupo de garimpeiros?”, questionam os denunciantes.
Apelo ao Comando Provincial da Polícia
A população de Luremo traça um paralelo comparativo com outras regiões do país, como o Uíge, onde a extração de minerais ocorre sem os mesmos níveis de violência estatal. O sentimento predominante é de que a Lunda-Norte está a ser submetida a um tratamento cruel e desproporcional.
As críticas apontam diretamente ao Comandante José Cita, que é acusado de perpetuar uma estratégia de intimidação que recorda episódios nefastos do passado, como a atuação da segurança “Kadyapemba”, que também terminou em tragédia para cidadãos locais.
“O comandante José Cita não foi posto aqui para orientar disparos no meio de uma comunidade indefesa. A população exige justiça, transparência e o fim imediato das práticas que, sob o pretexto de manter a ordem, estão a ceifar vidas e a destruir famílias”, clamam os habitantes de Luremo, que agora esperam uma intervenção urgente do Comando Provincial da Polícia Nacional.

