Agentes da Polícia acusados de matar a tiro jovem garimpeiro no Cuango

Compartilhe

Um cidadão foi morto a tiro por supostos agentes da Polícia Nacional no município do Cuango, província da Lunda-Norte, por volta das 11h00, de quarta-feira, 13, na sequência de uma emboscada feita pelos efectivos, numa via que dá acesso à zona de exploração de diamantes e que os quatro efectivos na operação se faziam transportar de uma motorizada de três rodas.

*Jordan Muacabinza|Cuango

A emboscada, segundo apurou A Rádio Angola, foi montada na via pública circulada pelos garimpeiros artesanais, no troço que liga o bairro Txissueia e a sede do município do Cuango, com o propósito de extorqui-los.

Fontes do Comando Municipal do Cuango revelam que os disparos feitos à queima-roupa, que atingiram mortalmente o cidadão identificado por Amado João Jonasse, foram feitos por um agente destacado no Tribunal da Comarca do Cuango, identificado apenas por Alegria.

O homem foi atingido com dois tiros, um no abdômen e outro na cabeça, que resultaram em morte imediata.

Após a morte, os agentes na tentativa de encobrir o caso, esconderam o corpo da vítima junto à lavra de uma camponesa nas proximidades da localidade do Txissueia, onde atearam fogo ao cadáver, mas foram vistos pela senhora camponesa, que correu até à vila do Cuango para denunciar a situação.

Dália João Jonasse, irmão do malogrado, disse a este portal que horas antes, por ser a única fonte de sobrevivência da maior parte da população das Lundas Norte e Sul, despachou o irmão (a vítima), para que fosse à área de exploração artesanal de diamantes, como tem sido habitual.

“Fui eu que o patrocinei para ir ao garimpo, chamou um taxista para lhe levar até ao local onde todos estavam a garimpar, pelo caminho, caíram nas malhas de agentes da polícia nacional do Comando Municipal do Cuango, o garimpeiro ao tentar fugir numa mata, os agentes enquanto mandavam parar o cidadão, seguiram-lhe com vários disparos que atingiram o meu irmão”, contou acrescentando que depois dos disparos, o moto-taxista que conseguiu escapar regressou à casa e informou o sucedido ao familiares do malogrado.

A irmã e a esposa do homem morto, mais outros membros da família, foram até ao local onde supostamente foi baleado e, enquanto tentavam ligar para o seu telemóvel, ouviram o mesmo a tocar até que encontraram o cadáver de Amado João Jonasse, natural do Cuango, com sinais de dois tiros no abdômen e na cabeça.

Diante dos factos, os populares do Cuango, revoltados com a situação, foram ao matagal e removeram os restos mortais que levaram até à 1ª Esquadra da Polícia Nacional no Município do Cuango.

Apercebendo-se da situação, o Comando Municipal montou uma barricada que impediu a passagem dos populares com o cadáver. Eram efectivos da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) e da Unidade de Reacção Rápida (URP), que segundo testemunhas abriram fogo contra à população indefesa, que com o medo abandonaram o corpo no meio da estrada.

A vítima era militante da UNITA

O secretário municipal da UNITA no Cuango, Manuel Muana Uta, deu a conhecer que o jovem assassinado era militante do seu partido, colocado no Comité do Bairro Mussaco, identificado com o cartão de militante nº 45858.

O comandante municipal do Cuango, Joaquim Chiloya, teria informado que o suposto implicado na morte de Amado João Jonasse já foi detido e aguardava ser apresentado ao Ministério Público.

O político da UNITA lamentou que a Polícia Nacional “não foi colocada na rua para assassinar os cidadãos nem para espancá-los, mas para garantir a segurança da população”.

Manuel Muana Uta disse que, tendo em conta o nível de impunidade que ainda prevalece na Lunda-Norte, com maior enfoque na região do Cuango, não acredita que o assassino seja responsabilizado pela justiça angolana.

“Nunca ouvimos, quer na Rádio Nacional assim como na Televisão Pública de Angola que os agentes que assassinam os cidadãos foram julgados e condenados publicamente”, concluiu.

Em declarações à Voz da América, o porta-voz do Comando Provincial da Polícia Nacional da Lunda-Norte, superintendente Domingos Muanafumo, disse que o presumível autor está detido para consequente responsabilização criminal e disciplinar.

Muanafumo justificou os confrontos ocorridos na quarta-feira,13, com o facto de a população ter transportado o cadáver até à esquadra policial e de ter feito barricadas e queima de pneus na via pública “num acto de rebelião”.

Fontes bem posicionadas do Club-K descrevem que, a operação feita pelos agentes em causa e que resultou no assassinato do jovem garimpeiro, teve o conhecimento do comandante municipal da Polícia Nacional do Cuango, Joaquim Chiloya.

No ano passado, um dos seguranças do actual comandante do Cuango, identificado por João, disparou mortalmente contra um cidadão, igualmente no município do Cuango, e o suposto agente anda a solta e sob protecção do Comando Municipal do Cuango.

Ainda no Cuango, um agente do SIC identificado pelo Domingo José Vadinho, foi acusado de ter matado a tiro uma criança de dois anos, numa zona de garimpo conhecido por “Lucola”, arredores de Cafunfo, mas segundo as testemunhas o agente continua impune sob protecção dos comandantes.

“Não cumpriu cadeia, e continua a trabalhar aqui nas Lundas, sem falarmos aqueles que assassinaram pessoas no dia 30 de Janeiro de 2021, que também andam impunes.  Senhor Ministro do Interior, não queremos ver polícias criminosos, pois o Ministério do Interior não pode ser refúgio de delinquentes e de rebeldes que assassinam cidadãos indefesos”, disse o activista dos direitos humanos, Jordan Muacabinza, para quem “basta mortes de civis nas minas de diamantes, senhor Presidente da República de Angola”.

Membros da sociedade civil no Cuango pedem esclarecimentos do caso

Alguns membros da sociedade civil no Cuango e Cafunfo exigem do comandante municipal, Joaquim Chiloya, com vista a esclarecer o crime.

“Se a morte do cidadão deveu-se por ter circulado com meios de garimpo, a pergunta que não se cala é quem autorizou a reabertura de casas de compra de diamantes espalhados em Cafunfo e na sede do Cuango?”, questionam os defensores de direitos humanos, que pensam que “ee existe garimpo é porque tem casas autorizadas para comprar diamantes nas mãos de garimpeiros”.

Os membros da sociedade civil na região do Cuango exortam às autoridades agirem contra as atrocidades de agentes da ordem. “Pedimos ao ministro do Interior e do comandante-geral da Polícia Nacional, para pôr fim às mortes de cidadãos no município do Cuango”, afirmam.

O malogrado deixa viúva  e três filhos.

Radio Angola

Radio Angola aims to strengthen the capacity of civil society and promote nonviolent civic engagement in Angola and around the world. More at: http://www.friendsofangola.org

Leave a Reply