Sobrevivente do 27 de Maio: “Só com a descoberta do que realmente esteve na base do massacre, é que haverá a verdadeira reconciliação”

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Quarenta e nove anos passaram, desde àquele trágico, mas célebre e histórico dia 27 de Maio de 1977, em que um grupo de  corajosos militantes do MPLA ousou, legítima e  justamente manifestar-se, por não concordar com a estratégia que um grupo de dirigentes perfeitamente identificável (alguns ainda estão vivos), escudado na figura do Presidente Agostinho Neto tentava, a todo custo, traçar um rumo que claramente se desviava dos objetivos pelos quais os verdadeiros patriotas de todos os matizes políticos sacrificaram suas vidas, para resgatar a honra e a dignidade dos angolanos negadas durante séculos de domínio e humilhação colonial na sua própria terra, objetivos consagrados nos Estatutos do MPLA, que Nito Alves, José Van Dúnem, Monstro Imortal, Bakaloff, Sianuk, e demais dirigentes defendiam ferreamente.

A resposta à manifestação foi a violenta repressão previamente planificada, levada a cabo pelo referido grupo, que qualificou a manifestação de “tentativa de golpe de estado”, pior: “INTENTONA FRACCIONISTA”, rótulo que um dos mentores e activo dirigente do massacre – Costa Andrade, “Ndunduma”, dolosamente concebeu e atribuiu à alegada INTENTONA, a seguir amplamente difundida na imprensa pública, com destaque para o Jornal de Angola por si dirigido, cujo editorial tinha como epígrafe, “É PRECISO BATER NO FERRO QUENTE”, tudo com o vil propósito de instigar os carrascos sedentos de sangue, para que acelerassem e intensificassem a matança selectiva de milhares de militantes no seio do MPLA, com destaque para os principais dirigentes da Primeira Região e antigos presos políticos.

Por incrível que pareça, apesar da evidência de factos que hoje abundam, os mentores e os executores da barbárie ainda insistem na narrativa da alegada “INTENTONA FRACCIONISTA,” enquanto o sensato seria sugerirem à Direcção do MPLA e do seu Governo a criação de uma verdadeira Comissão da Verdade, integrada por personalidades com idoneidade cívica e moral reconhecidas interna e externamente, para definitivamente se esclarecerem as enormes dúvidas que ainda existem, de formas a determinar-se com exactidão o que realmente esteve na base da repressão sangrenta, que ceifou a vida de milhares de militantes.

Há muito venho defendendo que o problema do 27 de Maio nada tem a ver com questões ideológicas. Não é verdade. Elas serviam apenas de ferramenta no debate político que se travava naquela conjuntura.

O problema é muito mais profundo do que muitos superficialmente pensam. O problema, caros compatriotas, era essencialmente político. Consistia na necessidade de se determinar a quem, naquela conjuntura política, assistia legitimidade para se traçarem as grandes linhas sob as quais se devia definir o rumo que o País deveria seguir, exatamente para que fosse possível resgatar a honra e a dignidade da maioria dos angolanos negada durante séculos de domínio colonial. Este é para mim, caros compatriotas, o cerne do problema que esteve na base da disputa que resvalou no massacre que agora se tenta minimizar, cuja finalidade é a de manter o poder a qualquer preço por um grupo de dirigentes que detém realmente o poder no seio do MPLA e dele tira dividendos.

Por mais que se teime em falsear esta questão do 27 de Maio, misturando-a no leque dos alegados “conflitos políticos”; por mais que a CIVICOP insiste nessa estratégia (errada) que adoptou desde que foi criada, de privilegiar apenas os efeitos em detrimento das causas que estiveram na base de tamanha repressão sangrenta, a verdade sobre o que realmente esteve na base do 27 de Maio e do massacre que se perpetrou logo a seguir a alegada INTENTONA, tem de ser desvendada.

Custe o que custar. Um dos factos que corporizam a verdade que a sociedade vem reclamando que seja desvendada, é a de se saber quem foram os verdadeiros responsáveis pelo assassinato dos comandantes cujos corpos foram encontrados dentro de uma Ambulância, carbonizados, às primeiras horas da manhã do dia 28, nas Barrocas do Bairro Sambizanga.

Porque foi, sem sombra de dúvida, aquele macabro acto que provocou a ira do Presidente Agostinho Neto, que, sem medir as consequências, irreflectidamente, agindo a quente, proferiu em hasta pública a diabólica frase que agora deliberadamente se omite: “ Não haverá perdão, nem tolerância contra todos aqueles que mataram e tentaram destruir o MPLA…” E mais… “Não vamos perder tempo com julgamentos…”.

O grupo que concebeu, planificou e dirigiu a repressão sangrenta, serviu-se daquela frase do Presidente Neto, transformando-a numa sentença condenatória com trânsito em julgado, para legitimar a repressão sangrenta que previamente concebera, assassinando milhares de militantes verdadeiramente patriotas. Infelizmente no meu País, um líder que manda matar milhares de cidadãos sem julgamento, é considerado herói.

Sobre a verdade que a sociedade em geral e as vítimas em particular reclamam, pessoalmente tenho uma opinião. Por essa razão, em 2010 publiquei um modesto livro, a REFLEXÃO. Mas a reflexão que faço é pessoal, não vincula quem quer seja. As pessoas são livres de concordar ou não com as ideias que defendo. Nunca chamei a mim o exclusivo da razão. o que reivindico é que o problema do 27 de Maio pela sua magnitude e gravidade, necessariamente deve ser discutido numa Comissão específica, e não misturá-la no leque dos alegados “conflitos políticos,” tudo com o vil propósito de esvaziar o impacto deste gravíssimo problema.

Caros compatriotas,

Que Angola temos hoje em termos de patriotismo, traduzido na no espírito de compromisso, solidariedade e identidade política e cultural que um governante deve demonstrar, desde que se levou a cabo a purga no seio do MPLA com os acontecimentos do dia 27 de Maio de 1977?

Assiste-se hoje a uma gritante falta de patriotismo por parte de determinados dirigentes do MPLA, fundamentalmente os que indica para exercerem cargos quer no Governo como em outros órgãos do Estado, com destaque para os de soberania. Regra geral, salvo raríssimas excepções, têm uma apetência quase que doentia em adquirir a apetecida nacionalidade portuguesa, essa mesma que o MPLA nos ensinou (e bem) dela renunciar, por essa razão se pegou em armas para libertar o País da colonização portuguesa e reconquistar a nossa identidade e nacionalidade, com todo o sacrifício suportado por muitos patriotas. Paradoxalmente, estes mesmos governantes que o MPLA indica, que deviam ser o exemplo de identidade e patriotismo dos cidadãos que governam, são os primeiros a adquiri-la.

O que choca, confesso, é o facto de boa parte desta estirpe de dirigentes privilegiar a nacionalidade portuguesa em detrimento da angolana. Até dão-se ao luxo de matricular os filhos em Escolas estrangeiras, onde as crianças em vez de aprenderem valores do seu País, aprendem valores de um País que não é o seu. Para eles Angola é apenas um lugar para se ganhar dinheiro, para depois desfrutá-lo na “pátria-amada.” É como se de cooperante se tratassem.

Enquanto estão no exercício dos cargos que ocupam, apressam-se em acumular fortunas, adquirindo luxuosas mansões com o dinheiro que roubam ao país e, tão logo cessam funções, rapidamente se bandeiam para a terra amada e lá permanecem até baterem a sola. Um até foi mais longe. Deixou um testamento a dizer: “não transladem o meu corpo para aquela desgraça (Angola), Cremem-no e guardem as cinzas num baú e depositem-nas algures na minha pátria do coração.”

Sempre defendi (continuo a defender), o MPLA, enquanto entidade política que detém o poder em Angola, não deve indicar para o exercício de cargos de relevância quer no Governos como em outras instituições do Estado de grande relevância, fundamentalmente nos órgãos de soberania, indivíduos com dupla nacionalidade. Hoje o tempo me está a dar razão.

Até indivíduos que também aplaudiram o massacre, já dizem ser necessário a revisão da Lei da nacionalidade, inclusive instam a Direcção do MPLA a ponderar, ao indicar militantes que vão exercer cargos de relevância quer no Governo, como em outros órgãos de soberania. Tudo isso caros compatriotas, por mais que custe admitir, a verdade é a de que é reflexo da tragédia de 27 de Maio, que agora se teima em minimizar.

O tempo é aliado da razão, porque esta corporiza o bem, a verdade. Por isso, só com a descoberta do que realmente esteve na base do massacre, é que haverá a verdadeira RECONCILIAÇÃO, que todos almejamos.

Luanda, 27 de Maio de 2026.

Miguel Francisco “Michel”

(Sobrevivente)

Club-K

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