“Presos políticos” esquecidos em Angola?
22 de fevereiro de 2026
Em Angola, entre os cidadãos detidos considerados “presos políticos” continuam os ativistas Osvaldo Kaholo e Serrote José de Oliveira, conhecido como “General Nila”.
Osvaldo Kaholo, por exemplo, encontra-se em prisão preventiva desde 19 de julho do ano passado e é acusado pelo Ministério Público de rebelião e apologia ao crime. O processo já está em tribunal. “Até agora não se sabe quando será o julgamento. Não está marcado nenhum julgamento”, afirma Elsa Kaholo, irmã de Osvaldo.
Também não há qualquer avanço no caso do “General Nila”. Diana Rita Joaquim, esposa do ativista, lamenta o facto de tudo estar parado.
“Estamos sem informação”
“Eles não estão a falar nada. Fomos aos tribunais para ver se conseguíamos o processo. Estamos sem informação. Quando fomos ao SIC-Luanda, disseram-nos que o processo está na mesa da procuradora e que ela se encontra doente. Até agora não temos resposta”, revela.
“General Nila”, alvejado com dois disparos na perna antes da sua detenção, encontra-se em recuperação na cadeia de Kalomboloca. Diana Rita Joaquim admite estar a enfrentar dificuldades para sustentar os filhos e o marido.
“Estamos sem dinheiro porque, onde vendíamos, levaram o quiosque. Nós vendíamos livros. Levaram o negócio”, relata.
Já os familiares de Osvaldo Kaholo manifestam preocupação com a sua segurança. Segundo Elsa Kaholo, o ativista foi atacado este mês por um colega de cadeia alegadamente com perturbações mentais.
“Tem lá dois doentes mentais. Um deles tentou apunhalar Osvaldo com a ponta de uma colher. Eles afiam a colher até ficar pontiaguda. Então, ele afiou e tentou espetar o Osvaldo”, conta.
A DW tentou contactar a justiça angolana, mas não obteve resposta.
“Não pretendemos parar”
Recentemente, a ONG Friends of Angola enviou uma carta ao Presidente angolano, João Lourenço, exigindo do Chefe de Estado uma posição pública sobre os “presos políticos”.
Florindo Chivucute, responsável pela organização não governamental, explica o que seria uma resposta positiva: “Consideraríamos uma resposta positiva a que, pelo menos, incluísse um esclarecimento público, fundamentando cada situação sobre os presos políticos, garantias do respeito do devido processo legal, eventual revisão judicial caso existência de indícios de irregularidades e o reforço do compromisso dos direitos, liberdades e garantias fundamentais”.
Já em liberdade estão os líderes das associações de taxistas e o ativista Jesse Lourenço. Julgado e condenado a quatro meses de prisão efetiva num tribunal de Malanje, o ativista garante continuar a abraçar a causa.
“Até agora não paramos e não pretendemos parar. Não sabemos o que nos vai efetivamente fazer parar”, garante, acrescentando “tivemos consequências graves e uma dessas consequências é sobretudo, familiar porque pai algum, mãe alguma desejaria que o filho estivesse nessas circunstâncias”.
“O país não se vende, defende-se”
Também Rodrigo Catinga, novo líder da Associação Nacional dos Taxistas de Angola (ANATA), empossado no passado dia 15, promete continuar a defender os interesses da classe com o slogan: “O país não se vende, defende-se”.
“Há a necessidade de construirmos o país, há necessidade de participarmos no desenvolvimento do país e nós, ANATA, temos uma visão. Entendemos que a nossa contribuição e a nossa ideia podem acrescentar ao desenvolvimento do país”, destaca.
No início deste mês, a organização Human Rights Watch considerou a situação dos direitos humanos em Angola grave. Florindo Chivucute sublinha que as diversas associações cívicas angolanas já têm alertado para esta questão.
“Têm apontado preocupações relacionadas com a liberdade de expressão, a atuação das forças de defesa e segurança, através do uso excessivo da força, tal como constatámos no mês de julho, e garantias processuais”, aponta.

