Marcolino Moco Solidário com Teixeira Cândido: Reconciliação Nacional Antes de Novas Eleições

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Imagem: Luanda Post

Por Dr. Marcolino Moco
Antigo Primeiro-Ministro de Angola

Não é meu hábito escrever quando me encontro fora do país, como acontece neste momento. Faço-o agora por imperativo moral e sentido de solidariedade. Solidariedade com todos aqueles que continuam a ser vergonhosamente perseguidos por estruturas de poder que atuam na sombra; solidariedade, em particular, com o jornalista e dirigente sindical Teixeira Cândido, cuja luta pacífica revela as fragilidades de um sistema que insiste em limitar as liberdades fundamentais dos angolanos.

A sua resistência não é apenas um gesto individual de coragem. É um símbolo da persistência de práticas que muitos acreditavam superadas. Um sistema que, em certos aspetos, se torna mais sufocante do que o próprio regime colonial — não porque o colonialismo tenha sido brando, mas porque sabíamos claramente o que ele nos negava: o direito à autodeterminação e à independência. Contra isso lutámos com clareza e convicção.

Mais tarde, enfrentámos o regime de partido-Estado. Acreditámos ter iniciado uma nova etapa com os Acordos de Bicesse, em 1991, e reforçámos essa esperança com o Acordo de Paz de 2002. Contudo, o que parecia ser o fim de um ciclo acabou por se transformar, gradualmente, numa reconfiguração silenciosa do mesmo modelo de poder — concentrado, pouco transparente e intolerante à crítica.

Hoje, o ambiente político continua marcado por perseguições, intimidações e restrições às liberdades públicas. Jornalistas, ativistas e cidadãos conscientes são frequentemente tratados como ameaças, quando deveriam ser reconhecidos como pilares de uma sociedade democrática. A crítica não enfraquece o Estado; fortalece-o.

É por isso que devemos refletir com seriedade antes de avançarmos para novas eleições que correm o risco de se tornarem apenas uma renovação formal de um sistema desgastado. Eleições sem confiança, sem transparência e sem verdadeira reconciliação nacional não resolvem conflitos — apenas os adiam.

A reconciliação de que Angola necessita vai muito além de discursos políticos. Exige um processo profundo entre instituições e cidadãos, entre diferentes gerações e até entre figuras que simbolizam distintas fases da nossa história recente. Não se constrói uma nação sólida sobre ressentimentos não resolvidos ou sobre silêncios impostos.

O recente Congresso da Reconciliação Nacional, realizado sob a égide da Igreja Católica, demonstrou que existem caminhos possíveis. Jornalistas, juristas e militares apresentaram reflexões e propostas concretas sobre reconhecimento de erros, pedidos de perdão e reconstrução da confiança institucional. Foram ensaios promissores de um processo mais amplo de cura nacional.

Reconhecer falhas não é sinal de fraqueza política; é prova de maturidade. Pedir perdão não diminui quem governa; reforça a legitimidade do Estado. Reconciliar-se não significa esquecer o passado, mas assumir o compromisso de não o repetir.

Angola é um país de vastas riquezas naturais e humanas. Possuímos recursos suficientes para garantir dignidade e oportunidades para todos — especialmente para os nossos filhos e netos. O que nos tem faltado não são meios, mas vontade política para romper definitivamente com ciclos de exclusão, concentração de poder e impunidade.

A luta de Teixeira Cândido, e de tantos outros, recorda-nos que a liberdade não é uma concessão do poder, mas um direito inalienável. Um país verdadeiramente reconciliado é aquele onde ninguém é perseguido por exercer os seus direitos constitucionais.

Antes de fixarmos datas eleitorais, devemos restaurar a confiança nacional. Sem essa base, qualquer processo eleitoral será apenas um ritual formal. Com ela, poderemos finalmente construir uma Angola onde justiça, liberdade e dignidade deixem de ser promessas e passem a ser realidades.

O futuro de Angola não pode continuar a ser moldado pelo medo ou pela repetição de velhos padrões. Deve ser guiado pela coragem de mudar — com verdade, responsabilidade e compromisso com o bem comum.

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