Cuanza-Sul: Seca ameaça colheitas e agrava fome na região

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Colheitas perdidas, alimentos mais caros e água imprópria para consumo. A seca no Cuanza-Sul expõe a vulnerabilidade das comunidades e a falta de respostas institucionais. Em Angola, a população da província do Cuanza-Sul pode enfrentar fome severa nos próximos dias, devido à estiagem provocada pela falta de chuvas na primeira época agrícola. A situação está a afetar a produção de alimentos e agrava a carência de água em vários municípios da província.

A época agrícola em Angola começa normalmente em setembro, período marcado pela queda regular das chuvas. No entanto, no Cuanza-Sul, entre setembro e dezembro, as precipitações não ocorreram com a regularidade esperada, o que provocou a perda quase total das culturas de milho, feijão, ginguba e outros produtos agrícolas.

No município do Calulo, o camponês David Carruagem afirma que a falta de chuva está a comprometer a sobrevivência de milhares de famílias que dependem daagricultura.

“Falando da escassez das chuvas, é extremamente preocupante para nós, os agricultores. Estamos há mais de 30 dias sem chuvas. Na realidade angolana, quase 80 por cento da agricultura é feita de sequeiro, depende diretamente da chuva. Quando há escassez de chuva, toda a agricultura entra em colapso. Estamos a ver os prejuízos, principalmente nos cereais, que são a base da sustentabilidade angolana”, explicou.

Colapso agrícola

A estiagem já começa também a refletir-se nos mercados, com asubida dos preços dos principais produtos da cesta básica.

“Os prejuízos económicos já se fazem sentir. Neste momento, se formos ao mercado, os preços estão altos: o quilo de feijão custa mil e quinhentos kwanzas, cerca de 1,4 euros, e o milho trezentos kwanzas, o equivalente a vinte e oito cêntimos de euro. A economia angolana é movida pela agricultura, por isso o governo precisa olhar com muita atenção para esta situação de estiagem”, alertou o agricultor.

No município da Conda, o cenário é semelhante. Os camponeses lamentam a perda total das lavouras. Joaquim Maneira, soba de um dos bairros, diz que mesmo com o regresso das chuvas a situação já não tem solução.

“Estamos a lamentar porque os produtos no campo estão todos a secar: milho, feijão, ginguba. Mesmo que a chuva caia agora, a produção já não vai recuperar. A maior parte da produção está estragada”, lamentou.

Na Gabela, a estiagem afetou igualmente as plantações de café, milho, feijão e ginguba. O diretor municipal da Agricultura, Domingos Afonso, afirma que a seca é um fenómeno recorrente e aponta a falta de infraestruturas como uma das causas do problema.

“É um fenómeno cíclico que ocorre de cinco em cinco anos. A solução passaria pela construção de barragens, valas e diques, mas falta dinheiro. Precisaríamos fazer o aproveitamento dos rios que desaguam aqui no Cuanza-Sul, que estão subaproveitados”, explicou.

Sede crónica

Com a falta de chuvas, não são apenas as culturas agrícolas que secam. No município do Seles, aescassez de água, que dura há décadas, continua a afetar milhares de famílias. Semilia Pedro conta que a população consome água imprópria por falta de alternativas.

“A questão da água no Seles é muito séria. Esse tanque abastece os bairros da Chapa, Ekwamanga, Santa Isabel e Cacheper. Neste momento, alguns lavam mesmo aqui, e o tanque não está em condições. Praticamente estamos a levar doenças para as nossas casas. Não temos condições para comprar lixívia. Se estamos vivos até hoje é pela graça do Senhor Deus”, contou.

No mesmo local onde se retira água para consumo, crianças lavam os pés a céu aberto, sem condições mínimas de higiene. A denúncia é de Nelson Bambi, também residente no município do Seles.

“O local onde tiramos água é o mesmo onde as crianças lavam os pés. Tudo a céu aberto, sem higiene. Só Deus para nos acudir. Falar de água no Seles é um caso sério”, denunciou.

Natural do Seles, Joaquim Calumbo diz que a situação de escassez de água se arrasta desde 1982 e questiona a capacidade das autoridades em garantir um direito básico à população.

“A escassez de água no Seles data desde 1982. Privar alguém de água é colocar em causa o bem maior, que é a vida. Então, em 50 anos de Independência, não conseguimos dar água ao cidadão?”, questionou.

A DW tentou ouvir a Administração Municipal do Seles para comentar a situação da estiagem e do abastecimento de água à população, mas até ao fecho desta reportagem as autoridades não se pronunciaram.

DW-África

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