Osvaldo Caholo: Um País, Dois Presidentes e o Mesmo Sistema Repressivo
Por Florindo Chivucute
A história de Osvaldo Caholo é, infelizmente, um retrato persistente da realidade política angolana nas últimas décadas. Ativista cívico e voz crítica do sistema, Caholo foi preso político durante a governação de José Eduardo dos Santos, no emblemático processo conhecido como “15+2”. Anos depois, já sob a presidência de João Lourenço, voltou a ser detido por razões políticas. Dois presidentes diferentes, mas um mesmo padrão de repressão.
O caso “15+2”, que marcou profundamente o debate público nacional e internacional, tornou-se símbolo da criminalização do pensamento crítico em Angola. Jovens ativistas foram acusados de crimes contra a segurança do Estado simplesmente por discutirem temas relacionados com governação, democracia e participação cívica. Entre eles, Osvaldo Caholo destacou-se como parte de uma geração que ousou questionar o status quo.
A alternância presidencial em 2017 gerou expectativas de mudança estrutural. João Lourenço assumiu o poder prometendo combater a corrupção, reforçar o Estado de Direito e abrir espaço ao pluralismo político. No entanto, a reincidência de detenções de ativistas como Caholo levanta uma questão inevitável: mudou a liderança, mas mudou o sistema?
A repetição de prisões políticas sugere a continuidade de práticas que privilegiam o controlo sobre o diálogo, a repressão sobre a reforma e a intimidação sobre a inclusão. Quando um cidadão é preso por exercer direitos constitucionalmente garantidos – como a liberdade de expressão, de reunião e de manifestação pacífica – o problema deixa de ser individual e torna-se estrutural.
O percurso de Osvaldo Caholo revela algo mais profundo do que a trajetória de um único ativista. Ele expõe a fragilidade das instituições democráticas e a persistência de mecanismos de repressão herdados de um passado autoritário. Um país, dois presidentes, o mesmo sistema repressivo – esta frase resume uma frustração coletiva que atravessa diferentes gerações.
A verdadeira questão que se coloca não é apenas sobre a liberdade de Caholo, mas sobre a capacidade de Angola romper com ciclos históricos de governação centralizada e intolerante à crítica. Enquanto a dissidência for tratada como ameaça e não como parte legítima da vida democrática, o país continuará a enfrentar os mesmos problemas estruturais: falta de transparência, fragilidade institucional, desigualdade social e restrições ao espaço cívico.
Osvaldo Caholo representa uma geração que insiste em acreditar que Angola pode ser diferente. A sua história desafia o país a escolher entre a repetição do passado e a construção de um futuro assente no respeito pelos direitos humanos, na responsabilização e no verdadeiro Estado de Direito.
A liberdade de expressão não deve depender de quem ocupa o Palácio Presidencial. Deve ser um direito garantido a todos os cidadãos – independentemente do tempo, do governo ou da conjuntura política.
Enquanto histórias como a de Osvaldo Caholo continuarem a repetir-se, a promessa de mudança continuará por cumprir.

