Fiscalização e Polícia da Camama acusados de destruir casebres de famílias carenciadas acolhidas pela Konda Marta
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Mais de 150 famílias encontram-se ao relento desde as primeiras horas de sexta-feira, 9 de Janeiro do ano em curso, após a destruição das suas “cubatas de chapas”, alegadamente pela fiscalização da Administração Municipal da Camama, arredores do Campus Universitário, em Luanda.
A denúncia foi avançada em conferência de imprensa pelas vítimas, que ressaltam que, a acção contou com a protecção de efectivos da Polícia Nacional do Comando Municipal, supostamente a mando do comandante municipal Alexandre Mingas, segundo o responsável da Konda Marta, Daniel Afonso Neto.
São dezenas de famílias que dizem terem sido retiradas em 2025 do projecto habitacional “Jardim de Rosa”, pela administração local e colocadas em terreno, que a empresa Konda Marta alega ser sua propriedade, que há caminho de um ano tem apoiado as vítimas que necessitam de abrigo.
Segundo as vítimas, é a quarta vez que o martelo da fiscalização da Administração Municipal da Camama “é sentida sem o mínimo de respeito pelos direitos humanos”.
Relatam que as demolições têm sido recorrentes desde a rotunda do Tulipa Negra até à área do Campus Universitário, tal como disse o cidadão António Pedro Fonseca, uma das vítimas, que afirmou à imprensa que a acção não é nova e que as mesmas equipas de fiscalização têm destruído sucessivamente as residências improvisadas das famílias.
“O que aconteceu hoje não foi a primeira vez, mas sim a quarta. Foram os mesmos fiscais que partiram as nossas residências na rotunda do Tulipa Negra (Bairro TC Neto), queimaram as cabanas onde vivíamos e levaram os nossos bens materiais”, lamentou.
O jovem António Pedro Fonseca explicou ainda que, após o primeiro despejo, as famílias foram encaminhadas para junto do Campus Universitário pelos próprios fiscais. No local, receberam apoio da empresa Konda Marta, que forneceu chapas e outros bens de primeira necessidade.
“A empresa Konda Marta nos acolheu e fez doações. Começamos a reconstruir a nossa vida e a ter esperança. Mas hoje a fiscalização, acompanhada pela Polícia Nacional, voltou e destruiu novamente as cabanas, quebrando o mobiliário que compramos com muito sacrifício”, lamentou.
O camponês demonstrou indignação e confusão quanto à postura das autoridades, afirmando que as famílias são frequentemente mobilizadas para actividades políticas.
“Não entendemos se somos invasores de terra, invasores políticos ou o quê. Somos chamados para campanhas, os autocarros vêm nos buscar, mas depois somos tratados desta forma”, questionou.
Outra voz afectada é a de Jeremias Francisco Ekuikui, morador e professor das crianças das famílias desalojadas. Ele alertou para o impacto da situação na educação dos menores.
“Angola é um país grande. É muito triste ver governantes mandarem a Polícia Nacional retirar famílias com bebés das cabanas. As crianças ficam sem lugar para estudar”, apelou.
Já a camponesa Jorgina Muanza contou que foi surpreendida pela notícia da demolição enquanto acompanhava um dos filhos internado no Hospital Geral.
“Recebi uma chamada a dizer que a cabana tinha sido derrubada. Não sei o que a fiscalização pensa de nós. Temos um governo para defender o povo, não para destruir, porque precisa desse povo para votar”, desabafou entre lágrimas.

Konda Marta fala em acção “terrorista” da Polícia e Fiscalização da Camama
O Presidente do Conselho de Administração da empresa Konda Marta, Daniel Neto, classificou a acção como “terrorista” e acusou directamente a fiscalização da Camama e efectivos da Polícia Nacional afectos ao Comando Municipal.
“Não se entende que, às vésperas da pré-campanha, um grupo de indivíduos ligados à polícia e à fiscalização venha intimidar uma população vulnerável. Nós acolhemos essas mães porque são cidadãs angolanas”, afirmou.
Daniel Neto denunciou ainda alegados interesses económicos por detrás das demolições, referindo a existência de um investidor estrangeiro interessado em vedar o espaço, supostamente destinado à universidade.
“Estão a demolir as cabanas porque já existe um cidadão chinês disposto a vedar o espaço. Dizem que é da universidade, mas não é para impacto social. Quem cedeu o espaço para o campus universitário fomos nós”, acusou.
O responsável apelou ao Executivo angolano para não se deixar influenciar por, segundo disse, “maus conselheiros”, que estariam a manchar o nome do Presidente da República e a criar instabilidade social.
Até ao momento, a Administração Municipal da Camama e o Comando da Polícia Nacional local não se pronunciaram oficialmente sobre as acusações.
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