A “espionagem” ao Teixeira Cândido na “maleável” opinião pública nacional – Vasco da Gama

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Observação inicial: – Fui, durante cinco anos, colega do jornalista Teixeira Cândido, na Faculdade de Direito da Universidade Católica de Angola, partilhando, como é óbvio, salas e, às vezes, carteiras e, por conseguinte, trocávamos ideias, pensamentos e defesas, normalmente e quase sempre alinhados.

Ademais, foi o Teixeira que me entregou, com as suas próprias mãos, o primeiro passe do SJA que usei logo após a minha inscrição naquela associação trabalhista, no longínquo ano de 2008 e passados 18 anos, verdade seja dita, mantemos o contacto.

Quando não falamos pessoalmente telefonamo-nos um do outro abordando situações ligadas ao jornalismo (praia que nos une) segurança pública, cidadania e, como não seria diferente, o que envolve o direito e à justiça (outra matéria que partilhamos por força da formação), sempre dentro da “mundividência ucaniana” (valores e princípios defendidos pela UCAN, que defendemos).

Portanto, a minha opinião sobre o tema retro-mencionado, cuja desenvoltura segue, vale somente sobre os factos. Nada contra ele. Aliás, a ser verdade eu sou e serei o primeiro a apresentar a minha solidariedade, mas a coerência intelectual e os valores que com ele apreendi não me deixam ficar no silêncio diante de uma opinião pública frágil, como a nossa…

– Em segundo lugar, sou daqueles que, em princípio, não se deixam levar pela maioria – seja ela simples ou qualificada – pois, este não é e não pode ser o requisito primário para que alguém tome posição em relação a determinadas matérias.

Para mim, as unanimidades sobre certos temas, essencialmente os que se alcançam por via da mídea, moderna ou tradicional – como é o caso – provocam sempre questionamentos.

Dito de outro modo, não faço opinião por mera influência da da maioria. Formo os meus ideais, as minhas convicções em função da valoração do que ouço, das imagens (visuais e sonoros) e dos factos. Ou seja, não sou um “vai com todos” e, por isto, não fui com os que leram, viram, ouviram e acreditaram, considerando o acreditar da maior…

Agora, vamos ao assunto da espionagem – o busílis da questão:

A semana que hoje, sábado, 21 de Fevereiro de 2026, termina ficou marcada, pele menos do ponto de vista mediático, pela informação segundo a qual “o jornalista angolano, Teixeira Cândido”, ex Secretário Geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA) fora alvo de acções de espionagem (vigilância) por parte de entidades governamentais (envolvendo o Titular do poder executivo) e uma entidade de Estado (referindo-se ao chefe do SINSE).

Sobre o facto nada a acrescentar, muito menos retirar, porque a informação é a que temos e mais nada. Apenas questionar o facto de registarmos uma opinião quase unanime em relação a isto. – o facto de termos uma sociedade que não questiona. Que não duvida – contrariando o que diz Descartes “da dúvida metódica à conquista da certeza”, (Lisboa, EMSE EDAPP, 2015), segundo o qual quem não dúvida dificilmente chega à verdade absoluta.

Trago isto porque, para compreender a informação tornada publica por uma organização internacional alguns dados básicos devem ser consultados por qualquer interessado, como o que fiz.

Na pesquisa que fiz depreendi que “o predator (usado no caso Teixeira) é um spyware móvel altamente invasivo originalmente desenvolvido pela Cytrox e actualmente operado sob a aliança Intellexa, um consórcio de empresas de vigilância. Está activo desde 2019 e é comercializado principalmente para governos e agências de inteligência para operações de vigilância”.

Portanto, como se pode ver, o aplicativo é, basicamente, comercializado a qualquer interessado, embora o texto ressalta a presença dos governos e das secretas. Aliás, dizer principalmente não é o mesmo que dizer “exclusivamente”, o que, para o nosso caso, deve levantar ou motivar certas indagações, nomeadamente:

Será que só os governos podem comprar o spyware? Será que só as secretas podem adquirir o aplicativo? Com que bases, matérias e elementos bastantes se chegou à conclusão segundo a qual o jornalista angolano fora mesmo alvo de espionagem arquitetada por aquelas entidades referidas e a que se reclama?

A informação avançada pela organização internacional diz isto? Aponta os autores e são mesmo os que que se apregoa? Como chegaram a esta conclusão e com a certeza e unanimidade tão irritantes?

Como é que não se duvida de uma verdade construída longe do que é ideal e real?

Não podemos pensar que tal tenha sido feito por outra pessoa, colectiva ou singular e alheia àquelas entidades? Será que só as duas entidades têm dinheiro para comprar o aplicativo, que pelo que percebi custa pouco menos de 40 Euros? Não há outra possibilidade e atendível?

Diante destas dúvidas o caminho a seguir e seguro é mesmo afirmar que tal fora feito por quem estamos a apontar o dedo?

Que país é este que não dúvida? Que não questiona? Que constrói a opinião pública no vazio e mesmo assim vinca?

Mais graves do que isto é o facto de organizações constituídas por individualidades que deveriam se respeitar, por serem adultos, como os que formam partidos políticos, convoquem membros – pais de filhos e encarregados de educação – reúnem, debatem o assunto e sem elementos substanciais cheguem à conclusão de que a espionagem fora feita por entidades do Estado e, a partir daí, prometem audição parlamentar e com pompas e circunstâncias habituais.

Adultos agem assim, meus senhores? Superficiais, mentalmente inexistentes? Sem questionamentos? Sem dúvidas? Sem o mínimo de pudor? Como se todos fossemos cegos e surdos diante de uma tolice destas? Sinceramente!

Será que o valor da informação e que leva as pessoas a acreditarem sem o mínimo de dúvida metódica prende-se com o facto de o proponente ser “branco”? é o facto de a informação vir de uma organização internacional?

Ou ela traz dados que não são do conhecimento de todos? Há informações que não chegaram a nós? – Porque se é aquela que todos vimos e lemos, de certeza, não há elementos suficientes susceptíveis de nos fazer acreditar que o jornalista tenha sido espionado por orientação daquelas entidades ou organismos em mote.

Até se pode presumir. Todavia, disto não passaria – presunção – que se pode resumir em “conversas de bar” e nunca evoluir para um tema institucional, muito menos uma certeza capaz de motivar o vexame a que fomos submetidos.

Para terminar, impera afirmar que estamos diante de um espetáculo proporcionado e alimentado por quem não tendo fanfarras nem palcos recorre a guitarras enferrujadas para contaminar os dedos que nelas tocam e ainda assim ousar falar em “ESPIONAGEM” mostrando, uma vez mais, o tipo e a forma MALIÁVEL como a nossa OPINIÃO PÚBLICA NACIONAL é construída.

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