Grito de socorro na Lunda-Norte: A tortura continua sob olhar indiferente do Estado
O cenário na Província da Lunda-Norte, especificamente no município de Cassanje-Calucala, tornou-se um palco de horror onde a dignidade humana é sistematicamente violada pela Kadyapemba Segura, Lda. A justiça não pode ser uma promessa adiada enquanto o sangue de civis continua a manchar o solo das Lundas.
Jordan Muacabinza|Cafunfo
Luís Eduardo Wanda, cidadão de 36 anos, natural de Caungula e residente em Cafunfo, é a mais recente vítima de uma onda de barbárie que parece não ter fim.
No dia 1 de novembro de 2026, enquanto circulava pelo bairro Kipalanga, Luís foi violentamente interpelado por seis efetivos da empresa de segurança privada “Kadyapemba”. O que se seguiu não foi uma abordagem policial, mas uma sessão de tortura gratuita e desumana.
Segundo o relato da vítima, a ação foi rápida e cruel: amarrado com atacadores de botas e forçado a deitar-se sobre um leito de pedras afiadas, Luís foi submetido a um espancamento brutal.
Recebeu coronhadas de armas de fogo e golpes de pás nas costas e nádegas. A violência, que beirou a tentativa de homicídio, atingiu também os seus órgãos genitais, deixando-o com lesões graves e hematomas severos no pé direito.
Esta atrocidade ocorre apenas dois meses após a assinatura de um memorando de entendimento datado de 27 de Agosto de 2026, que reuniu a Sociedade Mineira do Cuango, as administrações de Cafunfo e Luremo, a PGR, órgãos de defesa e segurança, Kadyapemba Segurada, Lda e representantes da sociedade civil e dos direitos humanos.
O objectivo era claro: pôr fim aos atos bárbaros contra os cidadãos
No entanto, a assinatura deste documento parece ter sido apenas uma encenação política, uma vez que a Kadyapemba Segura, Lda num claro desafio à autoridade do Estado e aos Direitos Humanos, retomou as suas práticas sádicas.
A realidade que obriga estes cidadãos a procurarem ouro de sobrevivência não é uma escolha, mas uma imposição da miséria.
Com o encerramento do garimpo industrial de diamantes e a exclusão social, o povo das Lundas sobrevive lavando os rejeitos descartados pela Endiama e pela Sociedade Mineira do Cuango (SMC), minério este considerado “sem valor” pelas grandes corporações, mas vital para a subsistência de famílias inteiras.
Se o recurso é desperdiçado pelas empresas, por que a segurança privada se sente autorizada a torturar quem tenta apenas não morrer de fome?
É inaceitável que, num país que ostenta o título de membro do Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos, empresas privadas ajam como milícias à margem da lei.
O silêncio do Executivo, perante as denúncias recorrentes de assassinatos e torturas nas zonas mineiras, soa como um aval tácito à impunidade.
Onde está a aplicação das leis quando a própria Governadora, Filomena Miza Aires, os Administradores Bonege Neco Carle Calala, e a Vitória Diosnes manifestaram publicamente a sua indignação contra tais atos, mas vê as suas palavras serem ignoradas pelas mesmas forças que deveriam garantir a ordem?
Senhor Presidente da República, João Lourenço, a paciência da população atingiu o limite.
A continuidade destas práticas, protegidas por um silêncio institucional, conduzirá inevitavelmente a um tumulto social que marcará negativamente a história de Angola.
A Sociedade Mineira do Cuango, enquanto entidade que sustenta a operação destes seguranças, não pode eximir-se da responsabilidade criminal por ser coautora desta carnificina.
Senhor Presidente, Não permita que a sua imagem e a da Nação sejam manchadas pela ganância de indivíduos que enriquecem através do “sangue” dos garimpeiros. O povo não exige privilégios; exige a preservação da vida e o fim da tortura.
O Estado precisa agir para penalizar os infratores e extinguir a autoridade autoproclamada de quem usa o uniforme para perpetrar crimes contra a humanidade. Antes que a revolta popular tome as ruas, o senhor Presidente deve, finalmente, mostrar que, em Angola, ninguém — nem empresa, nem segurança, nem mineradora – está acima da lei.

