Friends of Angola apela voto contra dos deputados do Parlamento à Proposta de Lei das ONG

Compartilhe

Apelo para Votarem Contra a Proposta de Lei do Estatuto das Organizações Não Governamentais (ONGs). Excelentíssimas Senhoras e Excelentíssimos Senhores Deputados à Assembleia Nacional,

A Friends of Angola (FOA), organização da sociedade civil comprometida com a promoção da democracia, dos direitos humanos e do Estado de Direito, dirige-se respeitosamente a Vossas Excelências para apelar, de forma clara, responsável e juridicamente fundamentada, ao voto contra a Proposta de Lei que aprova o Estatuto das Organizações Não Governamentais (ONGs), atualmente agendada para votação final e global.

Este apelo assenta em graves preocupações constitucionais, democráticas e jurídicas, amplamente partilhadas por organizações da sociedade civil, juristas, académicos e defensores dos direitos humanos, e agravadas pelo uso indevido de normas internacionais, em particular da Recomendação 8 do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI/FATF).

  1. Uma proposta materialmente inconstitucional

A proposta de lei viola de forma direta o artigo 48.º da Constituição da República de Angola, que consagra a liberdade de associação sem necessidade de autorização prévia.

Ao introduzir:

regimes de habilitação administrativa obrigatória para o exercício da atividade associativa;

poderes excessivos de supervisão, suspensão e controlo atribuídos a órgãos dependentes do Executivo;

condicionamentos políticos e administrativos à atuação das ONGs,

o diploma reintroduz um espírito de controlo estatal incompatível com um Estado Democrático de Direito, contrariando a letra e o espírito da Constituição, bem como a jurisprudência do Tribunal Constitucional de Angola em matérias análogas.

  1. Uso indevido da Recomendação 8 do GAFI (FATF)

O Executivo tem invocado a Recomendação 8 do GAFI como fundamento para justificar mecanismos amplos e generalizados de controlo sobre as ONGs. Contudo, essa interpretação não corresponde aos padrões internacionais atualmente em vigor.

Versão Antiga da Recomendação 8

Tratava o setor das ONGs como amplamente vulnerável ao financiamento do terrorismo;

Levou à aplicação de medidas generalizadas, desproporcionais e restritivas;

Essa abordagem foi formalmente revista e corrigida pelo próprio GAFI.

Versão Revista da Recomendação 8 (2023)

Em 2023, o GAFI introduziu alterações fundamentais que limitam o âmbito da recomendação a organizações específicas com risco comprovado; exigem uma abordagem baseada no risco, proporcional e focalizada; esclarecem que as ONGs não são automaticamente entidades obrigadas; reconhecem mecanismos de autorregulação e boa governação já existentes e recomendam uma supervisão não intrusiva, que não comprometa o trabalho legítimo da sociedade civil.

Conclusão inequívoca:

A proposta de lei em apreciação contraria a versão atual da Recomendação 8 do GAFI, baseando-se numa leitura ultrapassada, rejeitada e corrigida pelo próprio organismo internacional.

  1. Retrocesso democrático e ameaça à participação cívica

As ONGs são atores essenciais da democracia participativa, da fiscalização cidadã e da promoção do interesse público.

Submetê-las a um regime excessivo de controlo administrativo: enfraquece a participação pública; promove autocensura e medo; cria condições para perseguição seletiva de vozes críticas.

Tal abordagem é incompatível com os compromissos internacionais assumidos por Angola, incluindo a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e a Carta Africana sobre Democracia, Eleições e Governação.

  1. O papel constitucional do Parlamento

Excelentíssimas Senhoras e Excelentíssimos Senhores Deputados,

A Assembleia Nacional é o órgão legislativo por excelência e guardião da Constituição, não um simples órgão de ratificação administrativa.

Votar contra esta proposta: não constitui um ato de oposição política; é um ato de defesa da Constituição; afirma a independência do poder legislativo e protege o futuro democrático de Angola.

Apelo Final

Por todas estas razões, a Friends of Angola apela respeitosamente para que Vossas Excelências:

Votem contra a Proposta de Lei do Estatuto das ONGs;

Exijam a sua retirada ou revisão profunda;

Promovam um processo legislativo participativo, constitucional e alinhado com os padrões internacionais atuais.

Defender a autonomia das ONGs é defender a Constituição.

Invocar normas internacionais de forma distorcida para restringir direitos é um retrocesso democrático.

O Parlamento tera esta semana a oportunidade histórica de corrigir este erro.

Com elevada consideração,

Florindo Chivucute

Diretor Executivo

Friends of Angola (FOA)

Radio Angola

Radio Angola aims to strengthen the capacity of civil society and promote nonviolent civic engagement in Angola and around the world. More at: http://www.friendsofangola.org

Leave a Reply